segunda-feira, 14 de setembro de 2009

(I'VE HAD) THE TIME OF MY LIFE - Homenagem a Patrick Swayze (Edu Reginato)

Era sempre a mesma história. O garoto tirava férias e viajava de trem para a cidade de sua avó. Ele preferia a viagem de trem porque era mais divertida, mais demorada e seus cheiros (óleo queimado) e sabores (sanduiche de mortadela e guarana antartica) eram insuperáveis. Completando a magia da viagem nada como comprar e ler as nunca recentes revistas do Pato Donald que um gordo empregado da FEPASA passava vendendo nos corredores. Depois de umas doze horas de viagem quando se acreditava que o corpo, agora torto pela posição na cadeira incômoda, nunca mais voltaria normal, escuta-se o grito do cobrador de tickets: Rio Claro!!!!
E o garoto descia na cidade onde nasceu. Andava um pouco pelas rua em direção ao centro e rapidamente se chegava a praça central. Logo adiante, depois da praça central, ficava os cinemas. Eram três (dois no centro ao lado da praça e um perto do apartamento da minha avó), daqueles antigos, ainda os únicos da cidade. Era esse caminho que o garoto sempre fazia quando chegava as férias e o que mais queria era ver a programação do mês e calcular quantas sessões ele assistiria e quanto dinheiro teria que pedir para sua avó. Se essa premissa parece de um filme tipo Cinema Paradiso, depois de alguns anos após assistir o filme italiano o garoto acreditaria que havia vivido vários filmes na sua alma e visto morrer vários cinemas como do italiano, no entanto em silêncio, sem o rugido do leão.
O ano era 1987 e a cultura dos blockbusters ainda não havia tomado o Brasil. As salas de exibição não rendiam muito, mas ainda permaneciam meio capengas no circuito. Eram sempre maltratadas, cheias de pó com a tela branca manchada, caixas de som estouradas, cheirando a mofo e gerações de suor acumuladas o pano puido das poltronas. Mas, eram as salas da vida do garoto e para ele até o fim da vida, as melhores sala do mundo.
Passado o tempo, as crises e com a crescente demanda de qualidade para os cada vez mais mirabolantes filmes blockbusters, novas salas foram construídas melhor equipadas e geralmente localizadas num shopping. As salas antigas, sem lucro, eram fechadas e se transformavam em Igrejas da seita Universal do Reino de Deus.
Na vida do garoto ele veria morrer seis velhos cinemas, os de Rio Claro seriam o segundo e terceiro, os da praça, e quarto, o mais antigo perto da minha avó, que via e a história do primeiro, quarto e dos outros eu conto outra hora.
Depois de ver a programação esperava a noite chegar e ia assistir ao filme que passava. Poderia ser qualquer filme, qualquer porcaria e olha que o garoto assistiu muita porcaria. Mas, no meio desses filmes haviam outros duvidosos que o surpreenderam e um desses filme foi Dirty Dancing - Ritmo Quente. Hahaha, o garoto até hoje se orgulha de gostar muito desse filme de mulherzinha delicioso.
Lembrei desse filme e dessa história porque hoje faleceu o ator Patrick Swayze, vítima de um câncer no pâncreas que lutava há 2 anos.
Para o garoto e para mim, Patrick protagonizou um dos filmes musicais mais divertidos de todos os tempos e que tinha uma das melhores seleções já produzidas, ora, eu comprei os LPs da trilha!
O filme era muito ingênuo e (para quem estava fora do planeta nessas últimas décadas) tinha uma história simples sobre Frances Houseman (Jennifer Grey, a irmã antipática de Ferris Buller), conhecida como Baby, que está passando férias com a família num resort em Catskills. Um dia ela descobre onde os funcionários do hotel se divertem e dançam, e acaba se apaixonando por Johnny (Patrick Swayze), o instrutor de dança. Quando a parceira de dança de Johnny fica grávida, ao se envolver com um dos garçons, Baby se oferece para aprender a dançar e substituir a moça. Mas o pai de Baby, quando descobre, não aprova, pois considera que Johnny é de outra classe social, e por acusa-lo de engravidar sua parceira.
É bem uma trama da novela das seis, mas quando entravam os números musicais o filme estourava e não era só isso, a química de Patrick e Jennifer funcionava muito bem, um misto de inocência e sensualidade.
O filme começa com a fantástica Be My Baby do The Ronettes e termina com o empolgante e kitch número de dança ao som de (I've had) The time of my life cantada por Bill Medley e Jennifer Warnes. Eu e o garoto simplesmente amamos o final desse filme. E acho que em parte é por causa dele que o filme virou, aos poucos, um cult.
Dirty Dancing fez o garoto sair mais leve do cinema, feliz da vida, acreditando em amor, garotas e que antes de morrer teria que aprender a dançar daquele jeito.
Não vou falar aqui sobre a vida e as dores de Patrick Swayze, vou falar de como esse ator meio carrancudo mas carismático ficou na minha memória. Ao protagonizar Dirty Dancing, Patrick me fez acreditar num bem maior que era a felicidade, não só aquela fantasiosa ali na tela mas aquela ali sentado na poltrona do velho cineminha de Rio Claro. E é por isso que esse garoto ainda permanece vivo, e eu já adulto teimo em revivê-lo, pois somos um só e não podemos matar essa criança mágica que todos temos, principalmente se ela cresceu com altas doses de cinema nas veias.
É, acho que vou assistir pela milionésima vez esse filme em homenagem ao seu dançarino, o nosso velho Patrick e também em homenagem ao velho cinema que morreu anos antes do que alguns de seus heróis.

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