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domingo, 29 de julho de 2007

AS ROSAS SÃO VERMELHAS AS VIOLETAS SÃO AZUIS

As rosas são vermelhas, as violetas são azuis (Greenfingers, Inglaterra. Dir: Joel Hershman. Com Clive Owen, Helen Mirren e David Kelly. 2000)

Filmes ingleses - como de hábito - são ótimos, tanto comédias como dramas, no entanto as comédias inglesas partilham de um humor particular. Esse humor é bem dosado entre o negro, a crítica social, o cinismo, a ternura e o deboche, mas sempre com o inconfundível toque inglês.
No caso dessa comédia romântica o humor tende para a ternura - mas não escorrega e se mantem como agradável diversão.
E como esse espaço sobre cinema é eclético, nada melhor do que falar de um filme absolutamente inofensivo e gostoso de assistir.
Clive Owen (inexpressivo nesse filme) interpreta um infeliz detento preso por assassinar o irmão por ciúmes que é transferido para uma prisão de segurança mínima para participar de um programa de reabilitação de presos de bom comportamento. Lá ele conhece todos os tipos clichês de filme de prisão: o velho sensível que cumpre prisão perpétua, o fortão cabeça quente, o garoto cheio de vida, o negro acusado indevidamente. Lá ele descobre seu verdadeiro dom, a jardinagem. Junto com esses presos eles vão tentar participar de uma importante exposição de jardinagem que acontece anualmente no palácio de Hampton Court. Nesse meio tempo tudo vai mudar na vida desses detentos e incluindo a redescoberta do amor.
Ta ta tá, já sei o que vocês vão falar - puta filme mulherzinha - e realmente é um filme mulherzinha!!! Hahaha. (Esperem a publicação sobre Filmes Mulherzinha - vamos estudar esse gênero)
Qualé?!? Esse filme, apesar de todos os clichês vale a pena pela fórmula leve e bem intencionada, super positiva e up - puro sessão da tarde - e esse gostinho vale por tirar o peso de uma semana difícil ou de algum aborrecimento qualquer e por que não para agradar a mulher ou a namorada e assistir juntinhos comendo pipoca.
Para outros não ficarem pensando que pirei abaixo vai uma seleção de comédias pouco conhecidas e extraordinárias que expressam todas as peculiaridades do humor britânico:

GENEVIEVE - FILME DE HENRY CORNELIUS: A espetacular corrida comemorativa de Londres a Brighton é o cenário desta deliciosa comédia na qual uma rivalidade (automotiva e sexual) entre dois casais gera um sem número de confusões. Clássica comédia inglesa, senão uma das melhores - ingênua mas picante e esperta - foi um marco no cinema inglês, enorme sucesso na época e até hoje é comum exibições do filme em Londres. Foi um marco e é o divisor de águas na cinematografia inglesa, desse filme em diante o jeitinho inglês começou a se fixar. Nesse DVD é imperdível assistir os extras contando a história de sua realização.

A FORTUNA DE NED - FILME DE KIRK JONES: Num pequeno vilarejo de 52 habitantes, no interior da Irlanda, o aposentado Jackie O'Shea descobre que o prêmio da loteria nacional saiu para alguém do lugar. Então com ajuda da esposa e de seu melhor amigo Michael O'Sullivan, Jackie tenta descobrir quem é o felizardo, para poder se aproximar dele e tirar algum proveito da situação. Mas depois de várias tentativas infrutíferas acaba descobrindo que o vencedor, o tal Ned do título, morreu ao saber que ganhara na loteria. Como Jackie não é bobo decide se fazer passar por Ned para receber o prêmio. Mas por uma reviravolta na trama, ele terá que pedir a colaboração de todos os habitantes do lugar para que o seu plano dê certo. Deliciosa fábula sobre a amizade e a cobiça. O filme é um triunfo graças ao elenco notável de veteranos, em especial David Kelly (que está no elenco do Rosas são vermelhas...). Asistir e terminar com um sorriso de criança que achou dinheiro esquecido a muito tempo no bolso da calça.

UM BEATLE NO PARAÍSO - FILME DE JOSEPH McGRATH: O homem mais rico do mundo escolhe casualmente jovem hippie para ser seu protegido. Juntos, perambulam pela sociedade britânica com a intenção de provar que as pessoas fazem qualquer coisa por dinheiro. Essa comédia amoral e debochada é uma das minhas preferidas. Peter Sellers e Ringo Star juntos já é inusitado, mas existe outras pérolas como o material adicional intercalando a trama de autoria de Sellers junto com Graham Chapmam e John Cleese, embrião do Grupo Monty Python. Imperdível para qualquer pessoa apaixonada por cinema.

A LOTERIA DA VIDA - FILME DE BRYAN FORBES: No século XIX, na Inglaterra, uma loteria é montada para um grupo de vinte meninos: o último que morrer ganhará uma fortuna. Passados 63 anos, os sobreviventes são dois irmãos que não se vêem há quarenta anos. Um deles tem dois netos trambiqueiros e uma enteada discretamente ninfomaníaca. O outro está à beira da miséria e tem um neto gentil mas inútil. Humor inglês até a medula: elegante mas ferino. Destaque para a participação de Peter Sellers e a atuação de Michael Caine (sempre charmoso). Humor negro e comédia de costumes. Grande filme!!!!! Vai ser um pouco difícil de achar mas vai valer a garimpagem!!!!

E AGORA, PARA ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE - FILME DE IAN McNAUGHTON: Estréia nos cinemas do revulucionário e inovador Grupo Monty Python. É uma colagem de gags, piadas e desenhos animados criados pelo grupo. São inesquecíveis a aula de defesa pessoal contra atacantes que usam frutas frescas e o programa de TV que chantageia as pesoas. No futuro o grupo faria suas obras primas A vida de Brian e Em busca do Cálice Sagrado, não esquecendo o cruel e engraçadíssimo O Sentido da Vida. Filme obrigatório!!!!

QUINTETO DA MORTE - FILME DE ALEXANDER MACKENDRICK: Cinco assaltantes de bancos que posam como músicos se hospedam na casa de velha senhora, no decorrer da trama será necessário dar um fim nessa senhora. Os irmãos Cohem tentaram dar uma cara nova no remake Matadores de velhinhas, mas não deu certo, não se compara ao original, também com um elenco como aquele: Alec Guinness, Peter Sellers e Hebert Lom, entre outros, coisa impossível para Tom Hanks e sua turma de atores inexpressivos encarar. Comédia inglesa de puro humor negro. Delícia!!!!






CONTRA A PAREDE


Contra a parede (Gegen Die Wand, Alemanha / Turquia - Dir: Faith Akin. Com Birol Ünel e Sibel Kekilli. 2004.)

- Não se morre assim.

- Como é?

- Longitudinal.

- Longitudinal o que?

- O corte precisa ser longitudinal, não transversal. Corte transversal é bobagem!

O que procede a esse diálogo inusitado entre os personagens Cahit e Sibel quando se conhecem numa clínica de recuperação depois de ambos tentarem se autodestruirem é uma declaração de amor à vida através do desejo da morte.
Ou melhor, será que dá pra surgir uma história de amor entre dois seres tão antagonicos que desejam tanto se destruirem para se libertarem da "prisão" que o mundo se tornou a sua volta?
Cahit, velho punk frustrado, bêbado, sujo e autodestrutivo. Sibel, uma reprimida suicida que procura casamento com Cahit para se libertar das amarras de sua família conservadora. Ambos são alemães com raízes turcas, no entanto Cahit ligou o foda-se para sua raiz e, consequentemente, para tudo a sua volta.
E é graças ao turbilhão de sentimentos dos personagens que reside toda a virtude desse filme irregular mas poderoso.
Ambos se casam, sem amor. Cahit nem sabe porque está fazendo isso - talvez para satisfazer o desejo de liberdade de Sibel. "Foda-se, eu não tenho nada pra fazer mesmo!", diria ele.
Casados, mas cada um na sua - Cahit continua transando com sua antiga namorada punk e Sibel vai descobrindo os prazeres da vida noturna de Hamburgo.
Da convivência, algo surge - será amor ou a desesperada necessidade de conforto para a solidão e frustração.
Quando o amor surge ele vem amarrado à tragédia - Cahit mata por ciúme um conhecido que se envolveu com Sibel e tudo que poderia ser não foi - ele vai preso ela vai para Istambul tentar reconstruir a vida - durante os anos que irão passar ambos vão mudar, pro bem ou pro mal.
Histórias de amor entre opostos nunca foram novidade no cinema, no caso de Contra a Parede - o diferencial é a fúria impregnada nas atuações de ambos os protagonistas - Birol Ünel transmite toda a angústia de um ser que já morreu e continua a perambular sem destino (hoje, é um dos atores europeus mais badalados). No entanto Sibel Kekilli é a alma do filme, quando está presente tudo se transforma, o filme adquire uma pulsante vida um poder magnético - quando ambos estão juntos tudo pode acontecer e acontece (vide a cena no restaurante quando Sibel pergunta se Cahit quer casar com ela - soco no estômago!).
A segunda parte do drama é mais morna mas não menos importante - será o momento em que haverá a transformação em ambos e o inevitável reencontro.
Em determinado momento do filme o psiquiatra que atende Cahit cita um trecho da música do grupo The The: "Se você não pode mudar o mundo, mude o seu mundo". Chegando ao final do filme podemos afirmar que a frase tem sentido. Os personagens caminham para mudanças, o desejo de morte nada mais é do que o desejo de renascer, ser reanimado sujo de sangue e prosseguir sendo o mesmo ser mas com atitudes diferentes - como uma fênix que ressurge de uma poça de sangue.
Destaque para a fotografia e edição do filme. Além da excepcionaltrilha sonora - Sister of Mercy entre outros. O filme é dividido em capítulos através de uma banda turca que dá o tom para cada segmento.
O filme é pulsante e poderoso - e que dupla de atores fabulosos!!!!
Amor, fúria, solidão, sangue, desespero e expiação.
Mais que uma história de amor, é uma história de sobreviventes.

domingo, 15 de julho de 2007

GANGA BRUTA

Ganga Bruta (Brasil, 1933. De Humberto Mauro. Com Durval Bellini, Dea Selva, Lu Marival, Décio Murilo)

Humberto Mauro começou a filmar, em 1925, com uma câmera 9,5 mm, passando a fazer curtas como Valadão, O Cratera, etc. Seu primeiro longa metragem é de 1926, Na Primavera da Vida. Entre 1930 e 1933, compartilhou do sonho de Adhemar Gonzaga com a Cinédia. Foi a Cinédia que produziu Ganga Bruta (1933), que junto com o filme Limite de Mário Peixoto, se tornaria marco do cinema brasileiro e um dos mais importantes filmes da história do cinema mundial.
Em sua primeira exibição Ganga Bruta rendera pouco menos de 15 mil réis, o público carioca chamou o filme de “Abacaxi da Cinédia”, “o pior filme de todos os tempos”. Humberto Mauro ficou conhecido como “Freud de Cascadura” (referindo-se a cidade onde nasceu) e sobre a Cinédia diziam que daria uma “explêndida fábrica de goiabada”. Assim eram recebidos os filmes que fugiam do senso comum, ditos de vanguarda, consequentemente o filme logo saiu de circulação.
No entanto foi preciso o tempo e o acaso para que Ganga Bruta tivesse outra chance. Carl Scheiby, remexendo nos arquivos da Cinédia encontrou os negativos, remontou-os (com aprovação de Humberto Mauro) e exibiu-os, em 1952, na 1a Retrospectiva do Cinema Brasileiro e, finalmente, obtendo sua consagração.
Ganga Bruta é um dos mais belos filmes já feitos. Não apenas pelo roteiro que apresenta a trama de forma não linear, através de “Flash-backs”. Mas também pelo apuro técnico, pela inventiva utilização de técnicas cinematográficas de vanguarda em união com uma linguagem sensorial, instintiva, sensual. Usavam pela primeira vez três câmeras para filmar uma sequência, alêm do criativo uso do som, pontuado de ruídos, sussuros e uma intervenção musical, curiosamente o filme transita pelo mudo e o sonoro. A trilha incidental é do maestro Radamés Gnatalli e do próprio cineasta.
A trama é a seguinte: um engenheiro (Durval Bellini) mata a esposa (Déa Selva) na noite de núpcias, pois descobre que ela o traía. Só saberemos isso quando, em “flash-back”, ele relembra o namoro, as suspeitas, o noivado e, por fim, o crime.
São inesquecíveis as sequências da briga no bar (realista, muito bem filmada e editada) e da sedução entre o engenheiro e sua amada, onde ao olhar um joelho nu da garota deflagra-se o desejo sexual reprimido pelo protagonista, de grande sensualidade (a sequência é filmada em câmera lenta) a cena culmina numa antológica sequência de imagens-símbolo que representam o ato sexual.
Humberto Mauro sempre será um gênio e seu filme, como o próprio título diz, sempre será um filão bruto, resistente, persistente, eterno.

UMA NOITE NA ÓPERA

Uma noite na ópera (A night at the Opera, EUA, 1935. De Sam Wood. Com Groucho Marx, Chico Marx, Harpo Marx, Kitty Carlisle, Allan Jones, Margaret Dumont)
O cinema imortalizou vários personagens cômicos, entre eles está um trio de astros composto por Groucho, Chico e Harpo. Os irmãos Marx!!! No Brasil são pouco lembrados, mas existe uma legião de fãs que os reverenciam. Incluindo cineastas famosos. Numa das sequências de seu primeiro filme “Assaltante bem trapalhão”, Woody Allen homenageou um de seus personagens preferidos e inspiração de seu humor, Groucho Marx. Allen voltou a homenageá-lo em “Todos dizem eu te amo. Os irmãos Farrelly (do sucesso Quem vai ficar com Mary) e os irmãos Coen (Arizona nunca mais, Fargo, etc) sofrem influência direta do tipo de humor que esses personagens inspiraram
O tipo de humor do trio era anárquico, cheio de gags, muito “nonsense”e levemente malicioso. Começaram sua carreira no palco, num show mambembe que alcançou sucesso e despertou interesse da Paramount que os contratouy. Seus primeiros filmes nada mais eram do que adaptações do que fizeram no palco. Curiosamente, nessa época eles eram um quarteto, havia Zeppo, o quarto irmão, que sempre fazia o galã mas não tinha talento cômico.
Os filmes dos irmãos Marx pela Paramount foram bem sucedidos mas não alcançaram aquele patamar onde as grandes comédias estão, foi preciso a intervenção do brilhante e temido produtor da Metro Irving Thalberg que os contratou e ofereceu o projeto de “Uma Noite na Ópera”(A night at the Opera), o filme que imortalizou os irmãos Marx.
Nesse filme muito mais produzido e equilibrado que os anteriores e com um par romântico muito melhor inserido na história (foi o primeiro filme sem Zeppo que se desligou da trupe), os irmãos Marx usam e abusam de seu humor esperto e delirante. Groucho é o homem dos diálogos irônicos e de duplo sentido, Chico é um tipo de “matuto/espertalhão” ítalo-americano que não parece em nada com um “matuto/espertalhão” ítalo-americano e que funciona perfeito como “escada” para Groucho e Harpo, esse último o mais “nonsense”, é mudo e ingênuo e seu humor beira o surreal.
Nesse filme, dirigido pelo ótimo Sam Wood, Groucho é um malandro empresário de ópera que quer tirar dinheiro de uma mecenas milionária (Margaret Dumont, hilária). Chico e Harpo tentam ajudar um cantor de ópera novato (Allan Jones) a alcançar o sucesso e ficar com sua amada (Kitty Carlisle). Todos se encontram num navio que leva a companhia de Ópera em excursão.
São antológicas as sequências da minúscula cabine de Groucho lotada de pessoas (essa gag até hoje é exaustivamente copiada), da negociação de contrato entre Chico e Groucho e o clímax no teatro de ópera. Além disso tem boas sequências musicais onde os irmãos mostram sua versatilidade.
“Uma noite na Ópera” é uma inesquecível comédia da época de ouro do cinema americano, você pode amá-la ou odiá-la, mas com certeza não vai sair indiferente. Esse filme merece ser redescoberto.

OS SALTIMBANCOS TRAPALHÕES

Os Saltimbancos Trapalhões (Brasil, 1981. De J.B. Tanko. Com Renato Aragão (Didi)Dedé Santana (Dedé), Mussum, Zacarias, Lucinha Lins, Eduardo Conde. 95 min)

Alguns filmes geram certas dúvidas de classificação. Qual obra realmente é um clássico? Como diferenciar o filme clássico do filme cult? Muitas vezes os filmes se tornam clássicos depois cults como Crepúsculo dos Deuses de Billy Wilder ou algo mais contemporâneo como O Poderoso Chefão de Francis Ford Coppola. Outros se tornam cults posteriormente são eleitos clássicos, muitas vezes por serem de mal gosto ou por relevarem algum tema controvertido como Plan 9 from other space de Ed Wood, Rock Horror Picture Show de Jim Sharman ou Império dos Sentidos de Nagisa Oshima. O clássico geralmente é o filme que possui um conjunto artístico memorável que o torna imortal. O cult é o filme que pode possuir ou não um conjunto de elementos artísticos que geram uma legião de admiradores que cultuam esse determinado filme assistindo-o a exaustão.
Para que tudo isso? Para falar do filme Os Saltimbancos Trapalhões, um dos filmes mais queridos do cinema nacional. Sim, ele é cult. Mas seria um clássico?
Os Saltimbancos é um marco, é até hoje a 5a maior bilheteria do cinema nacional, 5.218.574 expectadores, só perdendo para outro filme dos Trapalhões, o 3o lugar em biilheteria, Os Trapalhões nas minas do Rei Salomão.
O que faz desse filme tão cultuado, talvez se deva a um conjunto de fatores felizes, como o auge da simpatia do quarteto, uma melhor direção de J. B. Tanko ou as deliciosas músicas de Chico Buarque. Não há como negar que é o melhor filme dos trapalhões. Esse carinho da produção talvez se refira ao tema abordado que volta às origens de Renato Aragão e Dedé Santana, ambos adventos de circos e principalmente por abordar carinhosamente a marginália de pessoas nômades à procura de um firmamento. Esse filme junto com Bye Bye Brasil de Cacá Diegues foram os que mais chegaram perto dos imortais filmes de Mario Monicelli, diretor italiano que retratou uma fauna de personagens marginais adoráveis, nômades numa Itália pós-guerra. Nessas produções o elemento outrora romântico de uma época como o circo, o carnaval, a pantomima, a prestidigitação vão sendo devorados, esquecidos por uma cultura cada vez mais globalizada, tecnológica e capitalista.
Antes dupla, Didi e Dedé, depois quarteto chegando Mussum e Zacarias, representavam um povo quer sejam os fugitivos da seca ou simplesmente os marginais de uma sociedade com ânsia de uma melhor condição de vida num período de incertezas políticas. Fora das telas o filme sofreria do mesmo mal que se abate sobre os personagens, ele representaria um tipo de produto, que teria seu fim proclamado pela Era Collor, a entrada maciça dos Blockbusters e o firmamento da televisão como veículo de consumo em massa, os filmes brasileiros campeões de bilheterias. O curioso de Os Saltimbancos é que o filme, de certa forma prevê esse fim, representado pelos sonhos de Didi com Hollywood.
Os Saltimbancos têm aquela inocência burlesca imortalizada pelo grupo, todos estão ótimos. As cenas músicais são deliciosas e as músicas até hoje são cantadas e tocadas com sucesso. E temos um final, digno de Chaplin e Monicelli, com Didi sozinho no picadeiro e sua máscara de burro chorando.
Clássico ou não, um filme aparentemente simples e inesquecível, muito brasileiro em seus acertos e tropeços. Uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo!!!

A Câmara 36 de Shaolin

A Câmara 36 de Shaolin (The 36th Chamber of Shaolin, China, 1978. De Lau Kar Leung. Com Lung Chan, Billy Chan, John Cheung, Norman Chu, Hou Hsiao, Hoi San Lee. 111 min)
Existe um segmento dos filmes de aventura que muitos “torcem o nariz”, os filmes de artes marciais. Os conservadores vão alegar vários motivos para não apreciarem esses filmes, mas queiram desculpar, o cinema moderno não seria nada sem o referencial dos filmes de Kung Fu.
Sem a “Escola Shaolin de fazer Cinema” não teríamos conhecido John Woo nem Tsui Hark e muito menos teríamos as obras primas “Herói” de e “O tigre e o dragão” de . Imaginem Matrix e Kill Bill sem as espetaculares coreografias, na verdade teríamos um Quentin Tarantino diferente, bem menos divertido e pode-se dizer que muitos outros como Soderbergh, McG, Sam Raimi, ficariam orfãos da influência estética que direta ou indiretamente eles reverenciam.
Os filmes de artes marciais fazem parte da tradição cinematográfica chinesa, uma das produtoras, a Shaw Brothers, foi responsável por produções que alcançaram imenso sucesso no oriente e consequentemente, muitas vezes contrabandeados, os filmes conquistaram o ocidente.
No caso em questão falamos do filme “A Câmara 36 de Shaolin”, um dos mais criativos e imitados filmes de Kung Fu de todos os tempos. Dirigido por um mestre, Lau Kar Leung que foi dublê em filmes de ação e iniciou na direção nos anos 50, mas alcançou imenso sucesso com seus filmes nos anos 70. Lau dirigiu “Challenge of the Master” lançando para o estrelato seu irmão adotivo Liu Chia Hui, mais conhecido como Gordon Liu que foi até escolhido pela Cahiers du Cinema como o maior ator de artes marciais de todos os tempos (Gordon participa de Kill Bill I e II, onde é homenageado)
Nosso filme aborda a história do monge San Te (Gordon Liu) e sua busca de auto-conhecimento e seus esforços contra a dominação Manchu. Depois que sua família é disimada por soldados Manchus, o jovem San Te ingressa no Templo Shaolin para aprender artes marciais e se vingar, para isso tem que atravessar as 35 câmaras do Templo onde em cada câmara desenvolve uma habilidade através de engenhosos treinamentos, daí resolve abrir a chamada 36a Câmara para ensinar a população a se defender dos ataques Manchus.
Novamente elementos caros dos filmes da Shaw Brothers estão presentes: a vingança, a mensagem ideológica e política, a violência e a superação dos limites do corpo através do equilíbrio da mente e da alma e principalmente está lá o primor técnico, uma verdadeira lição de roteiro, câmera, edição e estilo. Nesse quesito o conjunto de fatores nos brindam com inesquecíveis sequências como a do treinamento nas 35 câmaras e as lutas entre San Te e o abade, em especial aquela usando a arma com 3 barras.
Mais que pura diversão, é uma aula de cinema. Filmes como esse ensinam o espectador a desenvolver um olhar mais atento ao rumo do cinema de aventura e como hoje os “Blockbusters” carecem de criatividade.

Dicas e mais dicas de Filmes Bacanas

Minha amiga Renata Leão vive me pedindo para colocar dicas no Blog, pois só fico indicando coisas da boca pra fora e pareço uma metralhadora - para ela e outras pessoas não precisarem correr pra pegar um caderninho e anotar os nomes - vou colocar uns filmes legais que me vieram a cabeça e foram lançados em dvd ou no cinema. Renata um beijão, I love you.

- Exílios - filme de Tony Gatlif
Um músico e sua amante decidem fazer uma viagem a Argélia, de onde os ancestrais dele vieram. Mas no caminho eles se rendem aos encantos da Andaluzia. Filmaço vigoroso. Música, amor, sexo e desilusão se misturam nessa obra pulsante. Um petardo de tão bom!!!

- Europa - filme de Lars Von Trier
Americano de ascêndencia alemã retorna para uma alemanha destruída pós terceiro reich e se envolve numa perigosa trama. Filmão visualmente incrível, o roteiro nem tanto, mas vale a pena.

- A moça com a valise - filme de Valerio Zurlini
Rapaz de família rica e conservadora se apaixona por moça pobre e de vida mundana. Parece filminho mela cueca, que nada!!! Clássico dos clássicos, um dos mais bonitos filmes italianos já feitos (aguarde comentário especial). Belíssimo!!!!

- A Lula e a Baleia - filme de Noaah Baumbach
O dia a dia de família esquisita, mas nem tanto. Os pais estão se separando, os filhos entram em crise junto com os pais. O filme é um triunfo de direção de atores - Jeff Daniels arrebenta junto com Laura Linney. Triste e com um humor amargo e irônico. Destaque para colapso final embalado por Hey You do Pink Floyd, nunca uma música caiu tão bem e expressa o desmoronamento das relações humanas. O desfecho diante da Lula e a Baleia é de chorar. Filmaço!!!!

- Irmão Sol, Irmã Lua - filme de Franco Zefirelli
A vida de São Francisco de Assis vista pela ótica do diretor italiano de Romeu e Julieta. Talvez um dos mais puros e lindos filmes já feitos. Direção, fotografia, montagem e música excepcionais. Filme pouco lembrado, mas vale conferir, para mim o melhor do diretor. (Boa Lembrança do amigo Batone)

- Tudo pela Fama - filme de Paul Weitz
Comédia de humor negro que tira um sarro no fenômeno "American Idol". Hugh Grant é o apresentador do programa, cínico até a medula, que decide inovar o programa com candidatos excêntricos. E dá lhe patricinhas ninfomaníacas, judeus metrosexuais e até terroristas. Ótima comédia. Destaque para Dennis Quaid que faz um presidente americano, completamente no mundo da Lua.

- Abismo do Medo - filme de Neil Marshall
Grupo de mulheres resolvem por esporte explorar uma caverna e tomam o caminho errado. Lá nas profundezas conhecem os habitantes do lugar. O diretor já tinha feito um filme super legal chamado Dog Soldiers (sobre lobisomens), mas nesse filme de terror vigoroso as criaturas são mais devastadoras. O que mais gera medo nesse filme é a claustofobia absoluta - lugares apertados e escuros não são bons para se fugir. Filme assustador e sério - é obrigatório.

- A eleição - filme de Johnny To
A tríade da máfia de Hong Kong está em período de eleições, como qualquer eleição vale de tudo, o diferencial é que para buscar votos usa-se da tortura e assassinato entre outras coisas. O filme é um soco no estômago. Fortíssimo e brilhante. A sequência final é de arrepiar os cabelos. Necessário, aula de cinema!!!!

- Clube da Lua - filme de Juan José Campanella
Belíssimo filme argentino. Homem tenta manter em funcionamento antigo clube argentino, o Luna de Avallaneda para que não seja transformado em shopping por grupo estrangeiro, nesse meio tempo é deixado pela mulher e se vê perdido e sem emprego. No fundo é uma alegoria sobre a argentina, o filme é uma ode de amor ao país e a busca por uma identidade patriótica. Mas é também uma bela história de amor e amizade. Comédia dramática maravilhosa. O ator Ricardo Darín é um dos meus preferidos, ele sabe como encarnar uma pessoa comum e extraordinária. Emociona e faz chorar pra caramba!!!!! Filmão!!!!!

- O céu de Suely - filme de Karim Aïnouz
- Cidade Baixa - filme de Sérgio Machado
- Cinema, aspirinas e urubus - filme de Marcelo Gomes
- O ano que meus pais sairam de férias - filme de Cao Hamburger
- Cheiro do ralo - filme de Heitor Dhalia
- Baixio das Bestas - filme de Cláudio Assis
Seis filmes brasileiros obrigatórios - cada um com uma ótica diferente. Todos representam o que há de melhor no cinema brasileiro. Todos são filmes vigorosos e estéticamente perfeitos. temos a visão do inferno, o sertão desértico, a luta pela vida, o egoísmo e podridão da psique humana, o amor de todas formas da tragédia ao lirismo, os sonhos e pesadelos infantis, a esperança num horizonte distante, e a felicidade de uma asprina e da arte da luz e das sombras. O cinema brasileiro é tudo de bom. Se continuar assim, estamos no céu e não sabemos.

LIXO EXTRAORDINÁRIO

Minha vida não existiria no Rio de janeiro se não fosse o Batone, ele foi o cara que disse vem e eu fui.
Nunca botei tanta fé num amigo como botei no Batone, naquela época nem era Batone era V..., mas deixa pra lá, o nickname herdado do seu avô é o que basta pois é nome que o identifica, hoje, no Rio de Janeiro e no resto do país.
Conheci o amigo Batone no Cine Clube da nossa cidade Marília, no interior de São Paulo. Já era uma figura conhecida de mim (amigo do irmão de um amigo meu) mas foi no cine clube que a gente se conheceu de verdade. Foi lá assistindo os Wenders, Godards, Monicellis que percebemos que travavamos uma linguagem em comum, tá tá o cinema, mas não era só isso, era uma linguagem em comum uma comunicação idêntica, o que um pensava o outro completava e vice-versa. Amizade de cara, puta amigo. Naquela época não sabiamos o que seria da vida, puta coisa chata essa de querer saber qualé da vida que nos espera, mas vira hora ou outra vinha esse papo - ele queria ser músico eu queria fazer filmes - e todas essas ambições sendo lançadas no ar lá no pátio da frente encostados no muro da casa dele - parecia muito difícil existir um mundo além daquele mundo da gente - aquele mundo da gente parecia bastante - tinhamos a escola, tinhamos festas, gatinhas para descolar, baladas em Avencas (carinhosamente, Las Vencas) para fumar um baseadinho e jogar conversa fora, muita conversa. Puta saco, o futuro!!! De repente esse fdp bate na sua porta e um segundo depois já somos outra coisa.
Batone era do Lobo Guará, banda que até hoje faz sucesso por aqueles cantos - as letras eram do Batone, era poesia pura ficava besta como ele conseguia musicar aquelas palavras - um dos últimos momentos com o Batone naquele tempo foi o cara me mostrando uma nova composição lá em casa: se não me engano Noite das Ovelhas - puta letra, até hoje é uma das que mais gosto.
Depois cada um foi para um lugar fui para São Paulo trabalhar numa produtora de comerciais e ele foi tocar a vida de músico com sua banda - e o cara ralou, ralou e não rolou nada.
Fui saber do cara numa festa de fim de ano que estava dando em casa - dois amigos me falaram que o Batone estava no Rio de Janeiro. Peguei o telefone e liguei para saber da vida. Combinamos que eu ia passar uma temporada para conhecer o tal Rio de Janeiro. Fui, gostei e voltei. Na verdade pouco conheci do Rio, mas gostei de estar com meu velho amigo e acho que ele gostou também. Ele morava num apê da Barata Ribeiro, o apê fazia juz ao nome da Rua, era infestado de baratas - hehehe acostumamos com os bichinhos, dali a um tempo já eram domesticadas - fora isso o cara, o poeta, o músico, era caixa de banco!!! Cadê nossos sonhos????? Eu também estava longe de ser algo, estava a deriva sem trabalho e procurando um horizonte.
Esse tempo na Barata rendeu, para mim, sua melhor música: Baratas Cariocas. O cara colocou numa balada chiclete algumas palavras impossíveis para tornar linda uma balada: Baratas e Giz Japonês, cara é difícil não escutar essa música e não ficar assoviando o dia inteiro.
Como tudo é possível nesse mundo até gente como a gente dar certo na vida, o Batone engatou um mestrado em Glauber Rocha (nosso cineasta preferido no mundo inteiro, hehehe), deu um pé na bunda no emprego do banco e foi mudar de vida, juntou com mais dois caras, Gabeira e Adriano (que diferente de nós se deram super bem na vida, hehehe) e começaram a engrenar uma mudança prum apê sensacional, só faltava mais uma pessoa para dividir o puta apê na Praia do Flamengo, quem quem? O Dú é claro, ligaram me explicaram que precisavam da resposta em 15 minutos (como mudar toda uma vida em 15 minutos - manual em apenas três palavras: apenas diga sim - isso serve para tudo na vida, tanto pro bem quanto pro mal).
Levei tudo que tinha na vida, menos a minha mulher e meu filho.
Fui para a terra desconhecida, pra terra das oportunidades - haha conta outra - tivemos que ralar muito e nada no Rio aparece de graça. No entanto nossa república foi um sucesso, foi inesquecível- nos divertimos pacas. Lá o Batone conheceu sua futura mulher, grande amiga do coração Gabi Gabiroba.
Com o tempo cada um foi morar no seu canto. Cadê vocês, Adriano e Gabeira?!?
Por um momento quase voltei para minha vidinha em São Paulo, mas o Rio era o meu lugar e do Batone, a gente persistia nessa droga. E como essa droga é boa.
Bem, porque contei toda essa história, em parte para passar o tempo, em parte para demonstrar meu amor por meu amigo e pela cidade que nos abrigou e em parte para falar do Lixo Extraordinário o trabalho que Batone gestou desde o apê na Paissandu e agora, finalmente, está pronto na íntegra. Seu disco é espetacular, não tô falando porque sou fã, mas porque entendo de música boa. E lá vai mais de dez faixas de música boa com aquelas letras palavreadas que só o cara faz - as músicas cheias de amor, alegria, melancolia, raiva e papo cabeça. Além das letras a banda que acompanha o cara, é um caso a parte - os melhores músicos de Londrina onde o cd foi gravado no megaestúdio do amigo Júlio.
As músicas são ecléticas tem as baladas, samba, tango e muito rock.
Batone preferiu ser democrático e disponibilizou o cd inteiro na internet - é só entrar ouvir e baixar - lá você encontra as letras para conferir (http://www.lixoextraordinario.com.br/)
E também tem um clipezinho que fiz para uma das músicas "Rosa dos Ventres" disponível também no you tube ( http://www.youtube.com/watch?v=6KitIAFIdKc )
Caras, fica aí uma história podemos até fazer coisas sozinhos mas junto dos amigos as coisas funcionam e acontecem melhor, e se os sonhos não forem como você imaginava pelo menos a gente se diverte bastante tentando realizá-los


O HOMEM DUPLO

O HOMEM DUPLO (A SCANNER DARKLY, EUA, 2006. DE RICHARD LINKLATER. COM KEANU REEVES, ROBERT DOWNEY JR., WOODY HARRELSON, WINONA RYDER, RORY COCHRANE. 100 MIN)

Vou começar abrindo meu coração num momento tiéte: Richard Linklater é o máximo!!!!.
Pronto, já estou refeito e posso prosseguir falando desse texano que tem no currículo dois dos filmes mais bonitos e cults sobre amor já feitos no cinema: Antes do amanhecer e Antes do pôr-do-sol (dois filmes que vou ter que dedicar umas linhas futuramente para falar). Mas não são só esses tem também o tributo de amor ao rock'n roll de Escola do Rock e a filosófica animação Waking Life. Quatro filmes legais de um cineasta americano é uma coisa rara então vale a pena falar de seu 5° filme legal, lançado recentemente em dvd.
O homem duplo é uma adaptação de obra de Philip K. Dick - o cinema já havia visitado o escritor em obras legais como Blade Runner, Vingador do futuro e Minority Report.
Basicamente o paralelo entre estas obras e o homem duplo é a Identidade- seja a perda da identidade, seja a identidade trocada ou a procura da identidade - no futuro de K. Dick a identidade de um ou mais indivíduos é um bem precioso e fugaz. Fugaz porque geralmente essa identidade não é controlada pelo indivíduo mas sim patrimônio de um organização que a libera para o uso.
Em Blade Runner vemos um grupo de replicantes que reinvindica seus direitos a propriedade de um identidade que os humanize. Em Vingador do Futuro o indivíduo descobre que sua identidade é uma farsa, um disfarce para uma identidade malévola. Em Minority Report vemos um indivíduo que tem de abdicar de sua identidade para provar que é inocente. No caso de o Homem Duplo temos um indivíduo que é um policial disfarçado infiltrado numa turma de junkies viciados numa tal Substância D. Bob Arctor, interpretado por Keanu Reeves, é um homem que descobriu que odiava seu mundo "american way of life", pai de família com a casa dos sonhos, tudo ele joga para longe - essa identidade é a primeira a ser deletada.
No momento em que começa o filme Bob Arctor é apresentado como o policial disfaçado, ele está vestido com seu traje de embaralhamento (roupa que o deixa sem identidade e pode lhe dar o rosto e o corpo de qualquer pessoa), ninguém no departamento de polícia conhece sua identidade, apenas é conhecido por um codinome o traje lhe proporciona a falta de rosto. Bob já está sofrendo a confusão mental de trabalhar como duplo, principalmente porque se afeiçoa aos seus colegas junkies e, principalmente, a Donna (Winona Ryder). Porém, sua confusão aumenta quando é designado a investigar o suposto traficante com ligações com o cartel de substância D: Bob Arctor. Bob tem que investigar a si mesmo. Nesse momento já está viciado em D, colocando a perder toda a investigação ou não...pode ser que nada é o que parece. Falar mais vai estragar as surpresas.
Linklater é um cineasta que fala sobre as relações humanas, então não espere ação e efeitos especiais. O homem duplo é uma ficção intimista com clima de policial noir. Os personagens dialogam sobre suas vidas, seus desejos e sobre a completa incapacidade de serem felizes. O uso de drogas é a única válvula de escape de um cotidiano medíocre e da falta de individualidade (os possíveis suspeitos são monitorados o tempo todo). As drogas são um problema crônico nessa sociedade do futuro (só do futuro?!?). O filme é líbelo anti-drogas, mas não deixa de apresentarmos as sensação constante de "chapação" - vemos um delírio constante, elevado pelo acertado uso da rotoscopia. Sim, é mais adequado classificar o filme como uma animação, porque é exatamente isso. Linklater, já havia trabalhado com rotoscopia em Waking Life, com resultados ótimos. O homem duplo é a evolução dessa técnica que teve origem na década de 30, consiste em desenhar sobre a película, filma-se a ação real com atores e depois se anima - o resultado é um misto de vida real com desenho. Graças à técnica o visual delirante é liberado.
O Homem Duplo é uma dolorida ficção policial de animação. Todos essas fatores podem nos confundir, mas é impossível não deixar de identificar esse filme como uma grata surpresa. Vale a pena assistir. Filmão!!!

O HOSPEDEIRO


O HOSPEDEIRO (THE HOST/Gwoemul - CORÉIA DO SUL, 2006. DE BONG JOON-HO. COM SONG KANG-HO, BYEON HIE-BONG, PARK HAE-IL, BAE DU-NA. 119 MIN)

Quando falo sobre O Hospedeiro, as pessoas me olham com um certo ceticismo. Falo que é o melhor filme de monstro já feito desde King Kong (1933) - sem menosprezar o belo trabalho no remake de Peter Jackson. Falo que é uma das melhores sátiras sóciopolíticas dos últimos tempos - eles não polpam o governo americano e sul-coreano. Falo que é um dos melhores dramas sobre relações familiares que o cinema asiático nos proporcionou. E, por fim, falo que é uma comédia ácida e esquisita. Cada vez que falo mais sobre o filme mais a pessoa que ouve fica pasma e me olha com aquela cara de que está escutando uma indicação de excelente programa furado.
Bem, quem achar que esse programa é furado vai estar perdendo um dos melhores filmes dos últimos anos. Um filme que proporciona uma montanha russa de sensações, no entanto, sem desequilibrar os ingredientes e transbordalos num "samba do crioulo doido".
Não sou o único que partilha dessa opnião. A Cahiers du Cinema, bíblia do cinema cabeça, elegeu O Hospedeiro como uns dos dez melhores filmes da década!!!
Vamos para a história: Um mutante, resultante do envenenamento do rio Han por substâncias tóxicas despejadas pelo governo sul-coreano e americano, começa a atacar pessoas às margens do tal rio. Uma família desestrurada parte em busca de uma das vítimas do monstro pois acredita que a garotinha ainda está viva. No entanto, para tentar encontrar a menina eles terão que enfrentar monstros piores que o bagre gigante - enfrentarão governos inefiscientes e ignorantes, a população paranóica e egoísta e as limitações de si mesmos, sim eles próprios são empecilho para encontrarem seu ente querido.
Numa época que as relações familiares estão completamente fragmentadas ou inexistentes - veja bem, na cultura asiática, a família é um dos pilares da cultura milenar - seja pelo trabalho, seja pela massificação da informação, seja pela sociedade que não almeja mais esses fatores e prefere o make your self, essa família resolve se unir - a sequência em que todos se juntam para chorar pela parente "morta" é hilariante - esse é um dos grandes trunfos do filme: a sensação de esquisitice, o humor aparece nos momentos mais inesperados.
Temos o velho patriarca e seus três filhos - o desempregado, o meio abobalhado (interpretado pelo ótimo Song Kang-ho) e a isegura campeã de arco e flexa - resgatar a filhinha do meio abobalhado é o objetivo do curioso grupo.
Uma das grandes sacadas do filme, o monstro (que deveria ser o grande astro do filme) é apenas um coadjuvante, serve como catalisador de todas as impurezas da sociedade moderna, não é apenas o Rio Han que está poluído e sim tudo que está em volta dele.
O filme tem momentos antológicos como o primeiro ataque da criatura (assustador!!!) e o duelo final (belíssimo!!!) - novamente não sabemos quem é o monstro afinal, os governos imbecis ou a pobre criatura mutante.
O clima amargo e dolorido do drama também é um ponto forte que cria uma sensação de verdade à uma trama fantástica: a sequência do duelo do velho com o monstro e a do triste jantar da família num trailer abandonado.
O filme é mais um drama sobre a luta de uma família contra um sistema que determina o seu destino e que esfrangalha os laços de união dos homens do que um filme de monstro. No entanto não deixa de ser o melhor filme de monstro já feito.
A criatura tem que ter um destaque, simplesmente fantástica e muito bem inserida na trama com um uso muito delicado dos efeitos especiais (que foram supervisionados pela WETA de Peter Jackson) - é na verdade um bagre gigante deformado, um design sensacional.
O filme custou meros 11 milhões de dólares - dinheiro de doce perto das dezenas de milhões gastas num remake de Godzilla (um dos piores filmes de todos os tempos). Dirigido pelo excelente Bong Joon-Ho, vejam Memórias de um assassino - lançado em DVD - em que Joon-Ho subverte os clichês de filmes de serial killers e nos brinda com algo diferente.
Hospedeiro quebra qualquer clichê, nos impôe verdades sinistras (preste atenção no paralelo que fazem da gripe do frango com a suposta epidemia que alegam o monstro estar disseminando), nos faz pensar sobre ecologia, sobre nossas famílias, nos faz arrepiar os cabelos e viver muita tensão e por fim, como nenhum outro filme de monstro pode fazer, nos faz chorar copiosamente pelo desejo de um mundo melhor, e que está longe de existir.
Simplesmente, imperdível.